Publicado por: eticademonstrada | 5 de maio de 2012

Que papelão


Que papelão

Menina para
com olhar fixo:
separa, revira,
no lixo se atira,
recolhe, que sina,
do fundo o pão
(e batuca o latão).
Ah, sociedade,
que papelão!

Na vida ensina
bem mais que aprende.
Que idade menina?
12… não cresce?
Faminta, adoece
(só 9, eu diria).
P’ra escola? Vai não?
Ah, sociedade,
que papelão!

Por que o sorriso?
No rosto, menina,
marcado de sol,
de alvorada a arrebol.
É por ironia?
“Sétima economia”
(vocifera um ladrão).
Ah, sociedade,
que papelão!

E se chega o canalha?
Na mão a navalha –
que crápula – a domina.
Que vida, menina!
Nem aguenta briga,
(tão cedo, a barriga)
Será filho ou irmão?
Ah, sociedade,
que papelão!

E aquele que preza a ordem
a família alva.
E chora: ora ou reza,
quer sua alma salva,
olho em cargo eleito
(p’ra nada fazer pós pleito).
Esse é o verdadeiro “Cão”.
Ah, sociedade,
que papelão!

Publicado por: eticademonstrada | 7 de março de 2012

Rasante


Rasante

De repente tudo muda.
Tudo mudo, derrapante.
Num rompante, diz-se tudo
que condiz com o instante.

Num repente se demuda
é desdito, jaz passante.
Só se fala amiúde
ou se cala na rasante.

Publicado por: eticademonstrada | 26 de fevereiro de 2012

Devaneio


Devaneio

Fôlego
tão mais profundo
à visão do seio desnudo.
Trôpego
sigo sua rota
tentando enxergar seu destino.
A roupa:
ao tirar amarrota…
Penso: há destino ou desatino?

Em transe
assumo o comando
que o instinto obedece.
Oferece,
sem hesitar ou temer,
à autoridade da tua voz em sussurros
o corpo
que não arrefece
embalado aos arrulhos e urros.

Publicado por: eticademonstrada | 5 de fevereiro de 2012

Tantas


Tantas

És tantas, és tantras, me tentas…
É agora, vambora, afora…
Me pega, apega, renega…
Sem cura: me atura! Me apura…
Me turra, me curra, me empurra…
Atenta, sedenta… inventa…
Me colhe, me bole e me engole…
Me assenta, me venta e senta…
Me toma, me coma, não suma…
ou some: insone dissone…
Não corro: morro, escorro…
Assuntos – conjuntos disjuntos…
ou verbos: retornos eternos…

Tu és tantas…

Publicado por: eticademonstrada | 1 de fevereiro de 2012

O eterno retorno (A Poincaré)


O ETERNO RETORNO (A POINCARÉ) 

Tempestades nos movam –
calmos apartes à parte –
ao infinito empurram
n’algum ponto há arte.
O retorno em tal canto
fará do ponto um conto.

Image

Publicado por: eticademonstrada | 28 de janeiro de 2012

Kizomba


Kizomba

Danças em minha mente
vezes tranquila, outras agitada;
não raramente dissimulada,
mas a dança é permanente.

Observo o seu balanço
embora dele incapaz eu seja
– sem ritmo e sem destreza –
de admirar-te nunca me canso.

Publicado por: eticademonstrada | 22 de janeiro de 2012

Texto e contexto


Texto e contexto

Testa e contesta
sem desarmonia ou pressa
ou a vida o arrasta
na areia o arremessa.

Testa e protesta
pra que se conformar
se sobra-nos a aresta
a transpor e tolerar?

Testa e atesta
nas ondas que lhe embalam
em agitada festa
que os sinos badalam.

Sonhar? Nada! Devaneia!
Quem sonha, dorme. Na lida
O bom é manter-se desperto.
Acorda! A ti e aos teus.
Férias da vida, anseia!
Um novo assalto aos céus!

Publicado por: eticademonstrada | 20 de janeiro de 2012

Matutando qui só


Matutando qui só

Cas ti zoiasse
i os buxo num revirasse
i tamém sua candura
in boca numdessi secura
cas’eu revivesse
dispudor dusonho dontonti
tocassi cheirassi lambessi
tudim diseus monti
sêsse dimim bom agouro
acauã piano bunito
em gaio verdiestompado
das cor diseu vistido

Si dieu si aparta
sua boniteza nua
zóio fico mirando
sa beleza carnada na lua
i o bole qui dá
si penso inhocê todinha
cabeça peito estrombo
té as baixeza minha
seguro fico zureta
lumia té a veíce
pareio mais tú cê sabe
bastava qui tú sistisse

Publicado por: eticademonstrada | 19 de janeiro de 2012

Três e dez


Três e dez
(I)

Fitei, contemplei, gostei do que vi.
Ave! A vi, sei que sorri. Sorriu?
Para mim? Eu, para ti!
Parati, sedento ingeri,
bem mais e melhor, teu gosto sorvi,
toquei seu corpo, com as mãos a li.
Ali, aqui, acolá… em todo lugar,
estás…
(…)
não sai de mim, nem tento tirar!

(II)
Me aproximei, seu cheiro senti.
Odor, ó dor! Não achegue-a a si:
em Si, em Dó. Maior em Lá… me perdi –
banho de luz, clave de Sol em mim, em Mi,
nas letras de seu nome, Girassol.
Tem Dó (se compadeça de mim).
Em Fá, em Si, em Sol. Lá… nunca em Ré
estás…
(…)
não sai de mim, nem tento tirar!

(III)
Tirar… atirar… extrair da caixa… dados arremessar
ao acaso… no ocaso… Em todo caso
bem me faz. Há mais?
imagino, e deliro. Há tino?
Arrancar suas vestes… ao seu corpo lançar-me
Fora de mim, dentro de ti: senti, li, sorvi, vi, sorri.
Porém, me encontrei, e não me perdi,
estás…
(…)
não sai de mim, nem tento tirar!

Publicado por: eticademonstrada | 17 de janeiro de 2012

Banho de Luz


Banho de Luz

Ah! E essa luz que distancia?
Nem entendo porque se oculta,
Caso sua fonte tocasse, apagaria?
Ou a tornaria diminuta?

Mesmo sem tocá-la, ela aquece,
Em chamas transforma – não sofro!
Sobrevivo com o calor! Te apetece,
Sentir-se mais vivo que morto?

E a luz é de todos: luz coletiva.
Aquece aos rotos e miseráveis.
Alumia aos trabalhadores da estiva,
Aos ladrões de Brasília (aos inimputáveis).

Agonia do mercador nefasto –
aquele que até a mãe negocia –
“Tudo quanto existe eu engarrafo!”
Ar, pensamento, paixão, alegria, …

À saída da caverna a luz arrebata.
Banho-me dela. Oh epifania!
Das feridas imediatamente trata.
Aproveito como fosse só esse dia.

E cada um tem seu quinhão:
O que estira-se na areia,
Senhor do castelo e aldeão,
E o que se oculta e pica a veia.

Não há inveja ou posse,
Cada qual se sacia e segue:
Há o que acelera a tosse,
E o que da vida se negue.

Por vezes a plantação murcha,
Por vezes dilacera a pele.
Mas há algo que atrai, puxa
Para a luz! Antes que o dia encerre.

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