Publicado por: eticademonstrada | 15 de janeiro de 2012

AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE


CAPÍTULO 29 (FINAL): AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE

Nunca é igual
Se for bem natural
Se for de coração
Além do bem e do mal
Coisas da vida

(…)
Como foi que eu cheguei aqui
Quem me diria que esse era meu fim
Olho no teu olhar
A festa de estar
De bem com a vida

Milton Nascimento: Coisas da Vida

Faz tempo que você se foi. Mas o tempo em que esteve por perto preenche boa parte do que tenho de ócio. Não reclamo! Sou, em justa medida, produto da convivência contigo, e das lembranças que guardo dela. Não tivesse ela ocorrido eu não teria a aversão que tenho à fumaça da nicotina mas, talvez, não tivesse conhecido The Doors, Pink Floyd e Led Zeppelin tão cedo quanto conheci. E também não teria lido tanto, fazendo pesquisas para os teus trabalhos escolares, enquanto estavas no expediente ou nas farras prediletas.

Também foi contigo que aprendi a compartilhar: a princípio o quarto e as minhas camisas, tão mais suas que minhas. Mas também as confissões por conta das paixões arrebatadoras que duravam um fim de semana – provavelmente compartilhamos também algumas das gurias, causadoras de tais paixões. Trocamos alguns sopapos também. Não nego! Mas nunca por causa das meninas. Mais fácil brigarmos por causa de futebol. Como na final do campeonato de 1989, você querendo me socar e correndo atrás de mim pelas ruas do bairro porque (veja só, que coisa!) eu estava feliz por causa do gol do Sorato. Você, e o resto da família, flamenguista; e eu Vasco da Gama até a alma. Realmente, nasci para ser oposição!

“Você é vingativo!”, dizia. E tinha razão… muita razão! Mas de você não vinguei, por exemplo, a pedrada que me atingiu a sobrancelha esquerda, causando uma falha que me persegue até hoje. Por pouco não me fez perder o olho!

E eu, que até hoje repito que prefiro olhos negros aos sem graça dos olhos claros… Provavelmente pontinha de inveja dos seus olhos verdes, frutos de uma dessas bruxarias da genética que, somente já próximo de sua partida, eu pude entender um cadinho. Os olhos que chamavam a atenção das meninas que eu, tímido, caladão, desengonçado e descabelado, não tinha lá muitas ferramentas para conquistar de modo tão eficaz quanto o seu. E, para você, eu (mesmo mais novo) era o certinho, o estudioso, o senhor das verdades universais e incontestáveis. Que nada! Eu era o que queria ter sua intrepidez, mas sem a necessária  segurança para ser tão corajoso quanto tu. Agora ouço aqui, à exaustão, “Meu amigo Pedro” que era a música que tu cantavas para irritar-me. Diz, “onde você vai eu também vou”. E como queria que aqui estivesses para dar-lhe aquele abraço e “continuar aquela conversa que não terminamos ontem, e ficou pra hoje”…

Abraço como aquele, eu distraído no bar e você me apertou e levantou no ar. Causou gracejos por parte dos presentes – quase ninguém sabia que éramos irmãos. E você para piorar a situação disse “posso até beijar a boca deste sujeito, ninguém tem nada com isso”. A maioria das pessoas não está preparada para entender os gestos de puro afeto. Acho que também eu não estava, a julgar pelos socos que lhe dei. Ora bolas! Até entre irmãos, um beijo na boca seria motivo para eu ser a piada do ano… mesmo assim fui a piada do dia por conta do abraço, e da surpresa que causou a todos quando souberam do nosso grau de parentesco.

“Como assim? Tão diferentes…” E, o pior, é que fisicamente (tirando os seus olhos verdes e a minha estatura um pouco maior) até parecíamos um cadinho…

Nem traço, nem sombra;
nem ponto, nem fuga.
Sou ser… sou ente,
sem nome, nem rosto.
De tão igual, seu oposto.

E nossas noites? Sobre o telhado da casa, olhando a cidade, tomando vinho (sem que a mãe soubesse) e comendo ovo cozido. Por falar em ovo, me ocorreu que te persuadi a tomar, durante algum tempo, um ovo cru em desjejum pela manhã, dizendo ser a causa para o meu desenvolvimento mais acelerado. Para conseguir sucesso, tive que tomar um na sua frente. Foi o primeiro e último ovo cru que tomei em minha vida, tive que conter a vontade de jogá-lo para fora – afinal, precisava manter a pose. Mas valeu pelos dias em que, escondido, via-te na cozinha fazendo cara feia ao repetir a receita. Depois que você saía, eu passava um longo tempo gargalhando. Houve também a ocasião (ainda éramos duas crianças) em que te convenci a enterrar sua lata de bolas de gude, com a justificativa de que, após alguns dias, no local nasceria uma grande árvore cujos frutos seriam bolas de gude. Logo uma implacável chuva desmarcou o lugar de nossa plantação e ficamos sem bolinhas para jogar. Ainda sinto na cabeça os cascudos que me deu por conta disto. Nada como o amor entre dois irmãos…

Hoje você é a mão esquerda que me falta! Engraçado ouvir mais uma vez, “onde você vai eu também vou”. Há uma grande verdade nisso. Se eu acreditasse em algo diria que receberias este texto como retribuição àquele teu abraço. Uma retribuição que interromperia brevemente a sua morte (acredito que ninguém morre de uma vez, vai morrendo continuamente com o passar do tempo). Mas falta-me muita sensibilidade para ter fé. Por outro lado, sobra a vontade de que aquilo que você dizia: “Te verei vencer um dia!”, tenha um pequeno fundo de verdade. Não se engane, continuo não querendo vencer a ninguém (o destemido era você, lembra?). Mas pelo menos queria vencer a dor que causa sua falta.

“Alegro-me! São coisas da vida…”, você certamente diria.

Nunca soube de verdade se repetias esta frase somente por nela estar contido o teu nome.

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Publicado por: eticademonstrada | 13 de janeiro de 2012

Sine qua non


Sine qua non

E não é que no banho gelado
O pensamento em ti me aquece
Água gelada? Que nada!
Naquele instante, ela ferve…

E se me banho ao seu lado?
Espanto nenhum causaria
Ter-se a água evaporado
No calor da companhia.

E caso molhados fiquemos
Após sairmos do banho
Toalhas serão inúteis,
Enxugo-te com beijos. Que sonho!

E aí que, do sonho ao delírio,
Da forma padeço e, contudo,
Entendo que o que me basta
É todo o seu conteúdo.
Em cada beijo te sorvo
Sugo, lambo-te a pele.
Secar? Era a intenção?
Te seco, te molho? Nem sei…
Enquanto, mãos em seu corpo,
Vasculham, acariciam, bolinam e tremem…
Em frenesi lambuzamo-nos…
Se o prazer que causo (se o causo…)
E recebo (como sempre o recebo),
Nos trouxer o mais que perfeito,
Nem mesmo após o gozo
Estarei exaurido e desfeito.
(Mesmo que satisfeito…
ficaremos um dia satisfeitos?)
E eu? Que sei? de banho, de ti…
Só que tu, em minha mente,
Tornas o banho necessário.
Mas… que tentação!
Nunca suficiente.

Publicado por: eticademonstrada | 11 de janeiro de 2012

Em pobres rimas


Em pobres rimas

Me atiça e some:
É feita de luz,
Que queima, consome
Inteiramente, me induz.
E eu… que fado!
Só rio… sorrio,
Mergulho, nado…
Mesmo encharcado,
Acendo o pavio…

Publicado por: eticademonstrada | 10 de janeiro de 2012

O HOMEM DIANTE DA MORTE


CAPÍTULO 21: O HOMEM DIANTE DA MORTE

Um pouco mais de sol – eu era brasa.
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
(…)
Mário de Sá Carneiro: Quase, 1913
____________________________________

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá Carneiro, 1914


A chuva. Para muitos benção dos céus; não em Orquestra. Sua chegada transforma tudo em alvoroço… quase pavor. Tudo muda, e para pior. Quando da sua última visita por estas bandas, estávamos há dias sem água nos reservatórios; quando passou não conseguíamos escoá-la porta afora – mas ainda sentíamos sua falta nas torneiras. Como em quase todo município, verbas para obras de saneamento básico e de construção de galerias pluviais nunca faltaram; mas estas tinha melhor destinação abastecendo de vinhos raros as adegas de nossos mandatários e regando dos melhores escoceses suas festas, bem como recheando de homens e mulheres suas orgias.

Chove há horas… lá fora percebemos o espelho d’água se elevar um pouco mais, a cada instante que passa, diminuindo sua distância até a cumeeira das casas. Esta visão atormenta, apavora! Quase como a visão de um homem diante da chegada iminente da morte. Iminente… Eminente! Ambas estariam corretas, afinal, a morte também tem seu aspecto respeitável… Ao mesmo tempo estremece e fascina. Necessária! Já que, sem ela como, por exemplo, habitaríamos este planeta limitado? Grandes epidemias (hoje pandemias) surgem exatamente nas épocas de grande inchaço populacional… talvez sejam os anticorpos do planeta em seu expediente.

O barulho da água sobre os telhados ensurdece. Também causa temor o que esta faz enquanto jorra pelos paralelepípedos desnivelados que pavimentam a rua. Alguns deles surripilhados para servirem de metas para o jogo de furingo dos moleques peladeiros. Moleque peladeiro sempre terá perdão pelos seus pecados: furto de água nas torneiras do quintal, vidraças quebradas, paralelepípedos em desfalque nas ruas,…Moleque peladeiro prefere a chuva. Pude ouvi-los daqui celebrando seu início leve, gritando e agitando com sua saúde e vigor. Os berros mais altos eu identificava como gols, grandes xingamentos como chances perdidas. Só moleques assim mantém, hoje em dia, a alma de nosso esporte predileto; manchado pela péssima reputação de entidades e agremiações corrompidas, campeonatos fraudados e dirigentes mafiosos. Nem mesmo a paixão há de salvá-lo… nem mesmo o tempo! Moleques peladeiros crescem e se transformam em mercenários e burocratas.

No início da chuva, também Aretusa se aventurou pelo quintal, acompanhei com os olhos seus rodopios, com a cabeça inclinada para trás do corpo, boca aberta e língua para fora. São adoráveis as crianças. Quase pude sentir, em sua companhia, o sabor daqueles pingos – como se alguns deles tivessem escorrido pela minha fronte até a minha boca, outros, mais apressados, caíam diretamente nela. Doce sabor de infância… perdida naquele dia.

Também chovia, assim como hoje. Lembro de minha mãe à porta, me chamando de volta em tom de ameaça. Depois sua voz, cada vez mais distante, dava recomendações. Como qualquer moleque, fingi que não a ouvia. Na época, tão ou mais impetuoso quanto meu melhor amigo, só não era tão rápido quanto ele… Alegro corria à frente e me desafiava; pé após pé, água e lama se agitavam e, com o peso de nossos corpos, se lançavam ao ar, como se nossa presença também as alegrasse. Após nossa passagem, em instantes o espaço deixado por nossos rastros era ocupado. Pegadas submersas

“Você é um molenga”, dizia ele com a nossa bola, desfalcada de alguns de seus gomos de couro, nas mãos. Molenga é uma das piores ofensas para um moleque impetuoso. Apertei o passo, como se uma reserva extra de forças tivesse se ativado automaticamente com aquela palavra, coloquei cabeça à frente do tórax e segui… corria como um recordista mundial sob efeito de anabolizantes (redundância?). Mas com a cabeça baixa não atentei para os obstáculos. Escorreguei em uma rampa de lama, provavelmente preparada por algum moleque bicicleteiro (uma outra categoria de moleque, mas que aceita interseção com a primeira). Meu corpo se projetou para a frente com tal força que ultrapassou Alegro.

Ainda ríamos da cena… tudo foi tão instantâneo, mas a nós parecera em câmera lenta (e ainda hoje me parece). Mas a câmera lenta desativou quando ouvimos aquela maldita buzina.

SALAZ!”

Ouvi o grito, mas não havia mais tempo para que eu agisse. O tempo recuperou sua velocidade normal e para o caminhoneiro também não havia muito a fazer; ainda assim doou sua vida, num ato de extremo heroísmo, para não esmagar meu crânio. Mas não conseguiu salvar minha mão esquerda, inutilizada para sempre com a passagem do último pneu do caminhão azul, bem próximo a meu corpo.  Lembrou-me o barulho de algo sendo amassado com o som abafado por embrulhos de pano – era assim que Celeuma procedia para triturar o palmito para a torta da semana santa. Após, ondas de dor percorreram meu corpo à partir daquela mão, que já era parte do meu passado, ondas em câmera lenta novamente. Lembro do pavor que tive ao ouvir o próprio grito. Grito que cessou imediatamente quando escutei o chiado barulhento que uma das tábuas de madeira fez ao desprender-se da carroceria e atravessar a cabine, decapitando o herói caminhoneiro.

Alegro que já do meu lado estava, correu em direção à cabeça que rolava. Agachou-se para olhá-la mais de perto e desmaiou! Nesse momento, meu coração é que fazia barulho, e passei a entender que era meu amigo, e não eu, quem necessitava de ajuda. Levantei-me e gritei por socorro com os destroços ensanguentados, daquilo que um dia fora minha mão, embrulhados em minha camisa, já encharcada de sangue. Isto causou enorme surpresa a todos que chegaram – após perceberem depois de alguns minutos, com Alegro recobrando a consciência, que era eu quem precisava de maiores cuidados. Desperto, Alegro parecia não mais estar abalado. Colocou o braço em meu ombro e confidenciou:

“Como é admirável a morte!”

Publicado por: eticademonstrada | 7 de janeiro de 2012

A UTOPIA


CAPÍTULO 19: A UTOPIA

Sorri pra mim…
Porque preciso enganar a dor
Surpreender o mal interior
Qualquer motivo pra me libertar
Enxergar o facho verde da esperança
A luz que há de iluminar
Por onde eu tenho vontade de passar.
Facho de Esperança: Sereno, Julinho & Moisés Santana 

Nestes momentos de contemplação das gotas (inesgotáveis gotas) que caem do céu e da água que começa a se acumular pelos cantos mais baixos da cidade, aqui, sozinho nesta janela, começo a pensar na frase “nenhum homem é uma ilha”. Pode até existir uma dose de verdade nisso, mas os sinos não dobram para todos igualmente. Nas condições em que a sociedade se organiza, a frase deveria ser atualizada. Todo homem pode ser, vez ou outra, uma ilha… muitas vezes isolado até de si mesmo. As conexões que estabelecemos com o continente (relações sociais, de conveniência ou não) e com os semelhantes estarão sempre sujeitas às condições impostas – pelo tempo, principalmente, mas também por fatores espaciais e financeiros. Fatores internos e externos criam e implodem pontes. Mas não são ilhas inertes, tais homens, movemo-nos não por conta de abalos sísmicos e por dinâmicas impostas pelas tais camadas tectônicas; e sim por forças contínuas de atração e repulsão a ilhas outras. Ilhas que se atraem, mutuamente, podem formar arquipélagos; porém, mesmo nestes arquipélagos podem coexistir ilhas que se repelem – por vezes, há entre elas apenas um estreito canal de água putrefata, conseqüência imediata daquilo que desconsideramos de modo desonesto ao mencionar termos como civilidade, evolução do ser humano, desenvolvimento, …

Teimo em aceitar a ideia imposta de interação por conveniência; entretanto, é possível perceber o quanto são temidos os subjugados. Aqueles, deixados à margem dos canais de esgoto e lixo, para os quais lançamos nosso olhar superior e, talvez durante uma vez ao ano, de uma benevolência fria e estéril. Tememos… mas nos vangloriamos de não estarmos ali… mal sabemos que, os que ali estão, também nos temem, e nos imputam a culpa pela sua situação marginal… e assim vamos (sobre)vivendo. Sobreviver… que termo mais preciso poderia existir? Sobre viver, como se para viver fosse necessário estar sobre outros. Igualdades só nos são convenientes quando nos são favoráveis.

A necessidade de manter nossa individualidade, somada à mesma necessidade presente em cada um dos outros, não entra em acordo com a ideia utópica de igualdade. (Sobre)Vivemos, presos a uma sociedade que nos atiça a vencer sobrepujando nossos semelhantes e, concomitantemente, o tal senso comum – hipócrita na origem, no percurso e na finalidade – nos insta a ter gestos pontuais de bondade e compreensão, dando-nos a falsa impressão de não sermos coniventes com a situação que se apresenta. Lavamos a consciência com algumas moedas e cestas de mantimentos ou, o que pode ser ainda mais ineficaz e perigoso, guardando a décima para alguma entidade inidônea, “pilantrópica” ou não…

 

Ah se eu pudesse a regra mudar
Lavar as sujeiras do mal
Flutuar em águas limpas
Seria depressa o caminho ideal.

 

Mas esta chuva, quase sempre carrega água suja apenas para aqueles que menos força tem para detê-la. Se verdade for que somos todos iguais sob o sol, é na chuva que as fraturas expostas das desigualdades tornam-se visíveis.

Visíveis… o que é visível, afinal? Apenas o que está diante dos nossos olhos? Tais pensamentos vem e vão na minha cabeça, Lá, mas sou sempre salvo pela visão de seu sorriso, que “me alumia a alma e me acalma quando eu preciso”, que me põe no chão, me faz sentar na grama e aguardar que também sente a meu lado. Que sente-se e sinta tudo o que há no meu interior, além dessa superfície, “véu e capa de uma mesma coisa”. É o que tem feito minha angústia ser menor, e meus dias passarem rapidamente, embora sempre queira parar o tempo quando estou a seu lado, e apressá-lo quando não estás… Olha aí de novo o lugar comum, que tanto nos oprime, começo pensando em individualidade, passeio pela justiça social e acabo delirando numa ridícula carta de amor (alguém muito sábio já afirmou que todas elas são ridículas). Acabará imaginando que sou açucarado, enquanto sou feito de sal e amargor.

Necessito estar sobre você, Lascívia. Ou você sobre mim, ou à minha frente, ou lado a lado. A disposição dos corpos pouco importa (desde que os corpos estejam dispostos), importa é que esteja perto. Mas desta janela mal posso estimar a distância que nos separa. Mas é um longe tão aqui, dentro de mim…

estás…

(…)

Não sai de mim, nem tento tirar!

Publicado por: eticademonstrada | 20 de outubro de 2011

Lascívia


Lascívia,

há nota musical em seu nome. Mas, mesmo que não houvesse, tudo em você é música e ritmo… e luz e cor. Cores que nem imaginava existir iluminam o ambiente à sua chegada. Lá… sim a via, a via em meus sonhos e delírios e, mesmo agora, tendo-a por perto, sonho contigo… deliro contigo. De longe havia sua cor apenas, agora também sinto seu perfume.

Me perguntou o que eu teria sido caso a sorte me tivesse feito rolar um pouco mais. Respondi de pronto que queria escalar… creio que nos é mais caro aquilo que pensamos ser intransponível! E você me perguntou se ainda sonho com cordilheiras.

Não Lascívia, meus sonhos agora envolvem sempre você. Você e seu som, sua cor, seu perfume.

Acordei agitado,
montes cobertos de sorvete
me preenchiam as sinapses,
por completo…
não cordilheiras
montes outros
onde o sorvete escorria
como neve ao sol
e abaixo minha língua o aguardava
cessando seu movimento de descida
e fazendo-o voltar ao cume.

Do, sempre seu,
Salaz

PS.: Lhe farei uma visita. Paro na sorveteria no caminho.


					
Publicado por: eticademonstrada | 1 de setembro de 2011


Eu chamo.
Tu chamas.
Chamuscamo-nos.
Pulsamos (no platô).
Ardemos latejantes.
Labaredas acendem-se,
tesas línguas de fogo nos lambem.
Consumimo-nos, esvaimo-nos.
Grãos de poeira
juntam-se,
umedecem:
cataplasmas
cem telhas,
centelhas…
Olhamo-nos.
Tu chamas…

Publicado por: eticademonstrada | 29 de julho de 2011

Passagem: de onde, para onde?


Passagem: de onde, para onde?
Aqui estamos, na estação.
Passado, presente, futuro
Que linha os separa?
Aqui, nada mais está no passado.
Nem há mais presente.
E, embora ele ainda inexista,
tudo é porvir. Futuro.
Estamos… Não!
Estávamos.
Neste exato instante,
o instante já passou.
Tornamo-nos arremedo do que fomos:
infelizes palhaços
dos quais acabaram de tomar o picadeiro.
Publicado por: eticademonstrada | 27 de julho de 2011

HISTÓRIA SOCIAL DA CRIANÇA E DA FAMÍLIA


CAPÍTULO 13: HISTÓRIA SOCIAL DA CRIANÇA E DA FAMÍLIA

Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio São Francisco – que de tão grande se comparece…
João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, 1956.

Após decidirmos matricular Aretusa na escola, supus que a tarefa não seria simples. Cabinda e ela não dispunham de documentação e o fator principal em uma escola não é o que se aprende ou se ensina, e sim os tais registros. Papéis em quantidade inimaginável, prensados em pastas, empoeirados e dispostos em gavetas que quando abertas o são apenas para arquivar mais papéis. De certo modo, é angustiante imaginar que parte considerável de minha vida está prensada em uma daquelas gavetas. Certamente nada mais que notas: vida escolar nada agitada.

Queria que em alguma daquelas pastas estivessem escritas as grandes aventuras, as amizades feitas e desfeitas a cada semana, as brigas com direito a revanches e mais revanches. Não que eu fosse brigão… Alegro é que era destemido, mas não importunava ninguém; apenas defendia os menos corajosos, como eu. O papel de brigão cabia a outro, desde cedo. Ainda na primeira série o brigão, sem motivo que justificasse o ato, levantou-se de sua cadeira e cravou boa parte do lápis  que mantinha à mão nas costas do colega da frente. Mal ouvimos o grito quando o vizinho da cadeira do lado voou num salto sobre o pescoço do malvado. O vizinho do lado era Alegro; o brigão, Nefando.

Em outro episódio, algum tempo depois deste primeiro, lembro que soltávamos pipas no pátio, em um sábado sem aulas (sempre achamos divertido frequentar a escola, mesmo em dias sem aulas). Um garoto parrudo intimidava um moleque magricela, dando-lhe cascudos. Os dois disputaram com as pipas nos céus, uma pipa nunca se importa com o tamanho e força do braço de quem a controla, apenas com sua destreza. O magricela foi mais rápido. Pipas interagem no céu, talvez sejam a mais primitiva das maneiras criadas pelo homem de aproximar-se de seu próprio sonho de voar. A história das asas de cera nunca me convenceu. Asas, para o homem, sempre pertenceram à imaginação; talvez até mesmo os passarinhos imaginem tê-las – mesmo tendo asas, passarinhos são poetas, imaginação pura… até voam os danados. E pipa nas mãos hábeis de um menino é como a imaginação na mente de um desses grandes poetas: o “dos passarinhos”, o “homem de ferro”, o “menorme”. Ou mesmo um desses, que sem intenção explícita, em prosa transformaram palavras rudes em puro lirismo, “ães”, “anos”, “unas”, “agos”… Bragas que, ao contrário de muros, se formaram em portões, sempre abertos, para nosso espírito – assim como pipas que são portões para a nossa imaginação altaneira. A pipa do magricela ziguezagueou repentinamente, com seu rabicho serpenteando o azul, linha esticada. Desceu como um raio, escrevendo sua poesia em prosa, em escrita corrida; preenchendo todos os espaços – talvez escrevendo uma crônica de suas origens: bambuzal às margens do Itapemirim. A do parrudo, coitado, pessimamente capitaneada, ao léu – mal versejava. Pega desprevenida, foi abandonada à própria sorte. E então, à deriva, tomou tal fôlego que a todos os outros moleques deixou, primeiramente de olhos arregalados, como deve ter ocorrido a um garimpeiro ao se deparar com sua primeira gema, depois, ainda em franca contemplação, maratonistas da mais fina estirpe, mas que enquanto correm mantém seus olhos voltados para o céu. Uma pipa “Bandeira”, que enquanto cai, parece nos dizer “eu faço versos como quem morre”. Mas que nunca morrerá – a não ser que se enganche num galho inacessível de árvore ou em fio eletrizado, aí sim, a morte é lenta, agonizante, horrorosa – sempre revive nas mão de outro moleque; ou o melhor corredor, que chega primeiro, ou o mais parrudo, que embora tenha chegado depois, usurpa do primeiro o direito de empiná-la.

O parrudo havia derrubado o magricela, e pressionava com as mãos seu rosto contra o chão. Alegro, tomado de uma disposição incomum, correu até o infeliz sem dar-se conta de que era menor e mais fraco… e levantou-o como a uma pluma, quase sem esforço. O parrudo, assustado, não esboçou réplica. Por outro lado, o magricela levantou-se chorando, batendo a poeira das roupas, rosto arranhado e sangrando pelo contato com o chão endurecido pelas pegadas dos moleques (peladeiros, pipeiros, bicicleteiros), e cheio de pedrinhas que serviam para que os mais fracos evitassem o desvantajoso combate corpo a corpo com os mais desenvolvidos.

“Venha aqui”, disse Alegro ao magricela, que, atendeu de pronto. “Agora é a sua vez. Bata nele.”

O parrudo, com cara de poucos amigos, se armou para a guerra. O magricela, atônito e amedrontado, ainda não acreditava na situação. Alegro repetiu a proposta: “Bata nele, você pode.”

O parrudo que mirava apenas Alegro, percebeu que este não mais interviria e, quando voltou sua atenção ao magricela já tomou o primeiro sopapo, e mais outro e um terceiro. Revidou após o quarto, mas enquanto se preparava para dar o segundo, recebeu um quinto sopapo junto com um pisão no pé que o derrubou. Ao que parece, o magricela era mais ágil não apenas com a pipa nas mãos. Ainda por cima do parrudo, e já com a contabilidade dos sopapos perdida, o magricela pareceu sentir-se vingado e Alegro o puxou.

“Levantem-se”, disse aos dois. “Agora você já sabe que ele é capaz de te bater, nunca mais precisarão disso, apertem as mãos.”

Ambos ficaram relutantes por um instante.

“Vamos, não é difícil. Apertem as mãos, seremos todos amigos agora, certo?”

O parrudo virou contador, mudou para a capital. O magricela, piloto de avião, roda o mundo, mas não esquece da gente, vez ou outra nos faz uma visita. Não esquece também do parrudo, tornaram-se grandes amigos, famílias se visitam e, sem imaginar que os pais sabem e aprovam, a filha do primeiro namora escondido o filho do segundo.

Nem dou muita atenção à funcionária que me atende. Ela própria não me deu atenção. A cada dez minutos, sem olhar meu rosto, me repetia: “só um segundo”. E voltava a mexer em algum papel inútil, outro registro de algum moleque, parrudo ou magricela, ou ainda invisível, como eu fui. Ela que demorasse mais dez horas. Estava ali ouvindo, sentindo e vendo tudo de novo: os mesmos sons das algazarras nos intervalos, o cheiro dos cabelos da menina da frente, o movimento, quase em câmera lenta, dos quadris da professora de Português…

“Senhor, uma criança dessa idade deve ter documentos. Ela não tem família?”

“Ela e o pai não tiveram condições de providenciá-lo.” Esfreguei na cara da infeliz que nem sempre ter família significa ter condições, e nem sempre ter condições significa ter família.

“Sem documentação não há como fazer matrícula.” E me voltou as costas. Se tivesse me apresentado a situação seria outra, mas preferi assim, dessa vez…

Encarei o portão, com medo de sair – lembrando dos momentos em que daqui quis sair e não pude. O mundo fora é mais cruel. Aqui lembranças voltam como velhos amigos a caminhar por estes corredores. Amigos que partiram sem despedidas; afinal, amigos nunca precisarão delas…

Aquela escola. Cada corredor, espaço vazio ou preenchido guarda um pedaço de minha infância no “buraco quente”; não apenas do que aprendi formalmente, mas, o mais importante, através das interações. Os eucaliptos próximos ao muro, testemunhas das vezes em que não fui capaz de saltar sobre aquele, em companhia de meu amigo fujão. Muro que não me impedia de ver o mundo lá fora, sentado à sombra do eucalipto, lendo os causos do Chicó – através do Ariano, o maior dos “unas” – ou do “Manuelzão” – através do Rosa, o maior dos “ães”. Me perdoe “Manuelzão”, sei bem, você disse um dia: “nem maribondo gosta de eucalipto”. Mas o que poderia fazer? Era a única sombra que eu tinha!

Publicado por: eticademonstrada | 18 de julho de 2011

PARA UMA MENINA COM UMA FLOR


CAPÍTULO 15: PARA UMA MENINA COM UMA FLOR

Eu preciso do seu amor
Paixão forte me domina
Agora que começou
Não sei mais como termina
Água da minha sede
Bebo na sua fonte
Sou peixe na sua rede
Pôr-do-sol no seu horizonte
Quando você sambou na roda
Fiquei a fim de te namorar
O amor tem essa história
Se bate já quer entrar
Se entra não quer sair
Ninguém sabe explicar
Dudu Nobre & Roque Ferreira: Água da minha sede, 2000

Estávamos no Zanzi-bar ensaiando. Alegro com as caixas, Cabinda tocava habilmente um pandeiro, Umutina arriscou-se na casaca e os nossos colegas do Moído batucando os tambores e demais instrumentos, todos entoávamos as cantorias.

“Onde está a baleia/ a baleia está no fundo do mar/ a baleia deu fora/ que o mar estremeceu/ valei-me nossa senhora/ onde está a baleia, eia, eia…”

Os mais curiosos amontoavam-se para observar, eu em posição privilegiada observava tudo encostado ao balcão, no qual estava sentada Aretusa, balançando o corpo no ritmo dos tambores, sendo apoiada pela mão firme de Celeuma.

Oi, no pé da pedra tem água/ oi tem água no pé da pedra/ Oi, no pé da pedra tem água/ oi tem água no pé da pedra…”

Nesse instante entrou a linda moça num vestido verde escuro com faixas horizontais também verdes, mas de uma tonalidade mais clara, que ia até abaixo do joelho. E, enquanto se encaminhava para o grupo de tocadores, os demais presentes afastavam-se abrindo espaço para a sua dança. E ela girava, curvando o tronco para o lado e segurando a barra da saia. Sorrindo, colocava pé ante pé balançando o corpo ao ritmo da melodia. E nisso parece ter feito escola pois Aretusa, que solicitou e imediatamente foi ao chão com a ajuda de Celeuma, seguiu em direção à moça para também dançar.

A moça, todos sabíamos, tratava-se de Lascívia: pura exuberância! Nem mesmo o suor que gotajava pela sua face deixava de encantar-nos a todos presentes. Quando ela girou com a borda do vestido agitando os cabelos de Aretusa a menininha sorriu e eu, mais ainda, enfeiticei.

“Minha mãe não quer que eu vá/ na casa do meu amor/ eu vou perguntar a ela/ eu vou perguntar a ela/ como ela namorou.”

E, como por brincadeira do acaso, seus olhos de repente se voltaram à minha direção, e eu que enfeitiçado estava, agora imaginava que estava a enfeitiçá-la também. Pobre de mim! Arremedo de cidadão mal feito. Eterno rascunho de mim mesmo, incapaz seria de conquistar aquela moça tão voluptuosa, tão encantadora, tão atraente, tão …

“Eu mandei carimbar/ eu mandei carimbar/ eu mandei carimbar meu dinheiro/  eu mandei carimbar.”

Já nem mais ouvíamos a música. Ela girava dançando, praticamente mantendo a cabeça e olhos fixados em minha direção e eu sentia aquele calafrio na barriga, a mão direita gelava. Quase tremia, mas não de frio ou pavor, em direção oposta meu corpo aquecia e sentia-me mais e mais atraído pela visão daquela mulher, senhora dos meus desejos, água de minha sede…

Com atrevimento incomum para meus padrões de comportamento, fui em sua direção, e ela mantinha seus olhos em mim. Parou de girar por um instante. Quase colado ao seu ouvido tentei disfarçar o nervosismo.

“Eu… sou …” Obviamente não consegui.

“Eu sei quem você é, também te desejo.” Me respondeu já puxando-me pela mão e me fazendo dançar desajeitadamente em sua companhia. Eu, tão rascunho, ao lado de figura tão perfeita. Nada mais parecia estar à nossa volta, ela girava agora com a mão presa à minha e eu, tentando disfarçar minha péssima coordenação, arrastava os pés sem graça. Sem graça e sorrindo, muito mais que após o prêmio da loteria, mais do que descobrir-me vivo após ter ladeado a sombra da morte. Sorrindo sem graça, sorriso bobo de palhaço sem picadeiro. Mil coisas vinham à minha cabeça e sumiam com a visão estonteante de Lascívia, girando a segurar minha mão.

Ela parou e me soltou, meu céu caiu… A vi afastar-se rapidamente, de costas para mim, de repente começou a se agitar e virou abruptamente, dançando em minha direção, segurou meus cabelos acima da nuca, eu a agarrei pela cintura com a mão direita, meus dedos apertando sua pele por cima daquele vestido… Olho no olho, mal sabia qual era minha respiração qual era a dela, mas sabia que a minha não estava da mesma forma. Ritmada agora, em um compasso quase enlouquecedor. A despeito de métrica ou rima, formulei uns versos para ela em minha cabeça.

A seu chamado,
apresso.
À sua visão,
apreço.
Em sua falta,
desfaleço.
A seu retorno,
aqueço.

Não os declamei, apenas segui seus passos, encantado… Minha dança para ela, desengonçada e vergonhosa, não era um presente que valesse a pena ser ofertado, não para toda aquela beleza. Lembrei-me da flor que Aretusa recolhera no caminho e colocara em meu bolso dizendo que eu poderia precisar de uma para oferecer à namorada. Sem pensar no que fazia a retirei do bolso e a ofereci a Lascívia. Quase em silêncio nos balançávamos, o único som que martelava na minha cabeça era:

O meu amor é passarinheiro/ Ele sô quer passarinhar/ Seu beijo é um alçapão/ Seu abraço é uma gaiola/ Que prende meu coração / Que nem moda de viola/ Na gandaia/ Fruto do seu amor me pegou/ Na gandaia/ Sua renda me rodou/ Foi a gira/ Foi canjira que me enfeitiçou/ Apaixonado/ Preciso do seu amor.” 

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